quinta-feira, setembro 16, 2010

Meu pé de Jenipapo, doce lembrança



Estou numa correria, e ando há dias procurando aqui nos blogs uma inspiração de uma tenda para jardim que não sei onde salvei e agora não acho, e enquanto procurava no blog da Camila (link ao lado), pois achava que lá encontraria a tenda, acabei por encontrar esta foto que foi uma viagem para meus olhos e lembranças.
Rubem Braga (escritor) teve seu cajueiro, alguém tem essa arvore com esse balanço e eu tive um jenipapeiro (árvore cuja fruta é o jenipapo, que os índios usavam para enegrecer o rosto e outras populações fazem o licor ou vinho) com um balanço como este. Foi tão bom lembrar dessa época!!! Voltarei logo pra falar mais dessa foto tão inspiradora!!!


Meu texto escolar inesquecível!!!! e Viva a Internet!!!


 O Cajueiro
 de Rubem Braga


      O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.


      Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.


      No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.


      A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.


Foi agora, em setembro. Estava carregado de flores.


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Conforme prometido, voltei pra completar o post de hoje:


Esta crônica de Rubem Braga eu nunca esqueci, a minha inesquecível professôra Maria da Conceição, de Português,  foi quem me apresentou várias pérolas literárias, textos que ela lia a frente da turma com tamanho entusiasmo que sensibilizava a todos, a mim profundamente. Ela nos apresentou Cecília Meireles, Érico Veríssimo, José Lins do Rego, José de Alencar e outros, mas estes lembro exatamente das aulas. Eu  estava com meus 14 ou 15 anos, no ginasial, final da década de 60.
Penso que o texto acima não está completo, pois lembro-me de uma passagem que ele dizia, o autor, que de longe quando ia embora da casa da mãe, de muito longe, o balançar das folhas eram como mãos acenando num até breve...será que foi minha imaginação?!!
O Jenipapeiro era exatamente como o Cajueiro de R Braga, alto, forte, no fundo do quintal,  com galhos que suportavam mais que um balanço; a goiabeira, a pitangueira, o coqueiro, a laranjeira, o pé de figo, o pé de cacau, o pé de amora, todos desapareceram com o passar dos anos, mas o pé de jenipapo resistia ao tempo, até que numa noite de uma grande chuva e ventania ele tombou, por cima do muro, quase caindo na casa do vizinho, assim mamãe me contou com tristeza, e foi como uma das testemunhas  de minha infância tivesse morrido, e com isso, áquele quintal nunca mais foi o mesmo,  isto aconteceu  na década de 80, eu penso.
Graças a foto da Camilla eu pude trazer a memória esses momentos e lembrar do meu pé de Jenipapo que tanto me divertiu e  alegrou,  ele ficou como nessa foto em minha mente, que ao me balançar  quando ia ao alto sonhava e sonhava, o vestido se enchendo de ar parecia me levar a voar e o vento refrescando meu rosto...obrigada meu Jenipapeiro amigo!!!!


















      

Um comentário:

Néia Lambert disse...

Acho que todo mundo tem uma árvore inspiradora na vida ou pelo menos deveria ter. É na sua imagem que guardamos momentos que não voltam mais, mas permanecem intactas na nossa doce lembrança.
Beijo