quarta-feira, junho 25, 2014

Rose Marie Muraro..."eu fui por fogo no mundo"

Mais aqui no blog http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/



Nesses tempos de Copa do Mundo aqui no Brasil, onde todos os outros assuntos tomaram o fim da página ou nem apareceram, aliás, devo repetir e confessar que não gosto desses  momentos globais de mesmo tema, onde parece que todo mundo só tem um motivo/assunto pra ser feliz/festejar/falar, já curti mais Copas do Mundo, hoje não mais, cansei. 
Mas voltando, outro dia lendo um desses jornais populares vi a foto de uma personalidade, sim, pra mim sempre foi, e aí que me dei conta que fazia anos e anos que não tinha nenhuma notícia, ou me passou despercebida, não sei. E quase passava invisível  a sua partida definitiva dessa vida  no meio de assuntos futibolisticos all time, todo tempo do dia. Mas ainda bem que não, e eu sinto e lamento por sua partida. Que siga em Paz...
Só lembro que quando era bem jovem essa Mulher me fazia pensar/refletir/identificar. Trata-se de Rose Marie Muraro. Escritora, faleceu em 21/06/2014 aos 83anos.
"Rose Marie Muraro foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil entre a década de 70 e 80. Foram mais de sessenta anos de dedicação e luta nas conquistas pelos direitos das mulheres. Ela é autora de mais de 40 livros e também atuou como editora em 1600 títulos, quando foi diretora da Editora Vozes, ao lado do teólogo e escritor Leonardo Boff. Os dois trabalharam juntos por 17 anos. Ao lado de Boff, ela também lutou pela teologia da libertação.
Formada em física e economia, ela também trabalhou na Editora Rosa dos Tempos. Em 2009,  inaugurou o Instituto Cultural Rose Marie Muraro onde trabalhava até a piora do estado de saúde"  
Rose Marie Muraro morreu aos 83 anos (Foto: CARLO WREDE/AJB/FUTURA PRESS)
 
O que disse  a Presidente Dilma Rousseff: "Foi com tristeza que soube da morte de Rose Marie Muraro, ícone da luta pelos direitos das mulheres. Intelectual notável, Rose Marie foi uma mulher determinada em tudo, na luta contra a barreira da cegueira, na luta pelas suas ideias. Somos todas gratas à dedicação incansável de Rose Marie".
"A escritora nasceu em 11 de novembro de 1930, com uma deficiência visual que a tornou praticamente cega. Só aos 66 anos, ela se submeteu a uma cirurgia e recuperou a visão. Pioneira no movimento feminista no Brasil, Rose Marie Muraro lutou por mais de 60 anos pelo direito das mulheres e escreveu mais de 40 livros entre eles: "Sexualidade da Mulher Brasileira" (1996), "Seis Meses Em Que Fui Homem" (1993), "A Mulher No Terceiro Milênio" (1993). Ela também chegou a ser diretora da Editora Vozes, fazendo a edição de mais de 1600 títulos."

Umas de suas frases polêmicas:
""Os homens são casadouros, as mulheres não. Os homens traem as mulheres para ficar no casamento e eles são polígamos. As mulheres traem os maridos para sair do casamento e elas são monógamas".

O Instituto Rose Marie Muraro postou um poema inédito da escritora com o título "O Pássaro de Fogo". 
Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.
Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.
Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.
Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.
Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.
E coincidentemente, li no blog da Constanza, o Futilish.com um texto, que me fez escrever esse Post como homenagem a  Escritora/Feminista Rose M Muraro, pois esse era um dos assuntos  nos anos 70/80 enriquecido por ela, e  ainda hoje é um assunto que mexe com várias opiniões, como podemos ver nos comentários do Post do Futilish com este texto abaixo de autoria de Ruth Manus:
 
"A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer!!"
EU NÃO concordo com tudo, mas há colheradas de verdades,  porém de todo  esse debate, em todo esse tempo, o melhor fruto colhido, é exatamente o PODER DE ESCOLHER,  se antes tínhamos um Destino Certo, Traçado,  Esperado, Valorizado, Único... HOJE podemos ser o que quisermos, vivermos nossas vidas  do jeito que nos sentirmos melhor, ninguém tem a obrigação de casar, viver sozinha, parir, ser ótima executiva, ser ótima dona de casa...ter dez filhos, não ter nenhum, ter dois, trabalhar fora, ficar em casa.... a escolha sempre será NOSSA!!! E como bem diz o texto, quem quiser/puder  que acompanhe, porque não dá pra voltar...Submissão e Dependência não deveria ter mais lugar na Vida de Mulher nenhuma, afinal,cada qual é responsável por si...e no final mesmo, sua eterna e constante companhia é você mesma...no mais é compartilhamento, parceria...
 
Eis o texto:
¨Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos: Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá. Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda. Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar. Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens,  homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilharem como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro.  Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém  lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.¨
Ui, firme, direto e claro. Como a nossa geração. E traduziu perfeitamente o que eu conversava com uma amiga um dia desses: os caras procuram por uma menina fragilzinha, que seja doce, meiga, que tenha que ser levada em casa, que se encante com cada jantar chique ou viagem que um homem pague para ela. Mas nós, felizmente ou infelizmente, já rodamos o mundo e sabemos chegar em casa sozinhas. E isso assusta a grande maioria masculina, que diz admirar mulheres assim mas não tem o menor tato para lidar com essa geração. O ¨problema¨é que nós sabemos que a melhor companhia  sempre será a nossa e que estar sozinha nem sempre é sinônimo de infelicidade. Pelo contrário, às vezes é até melhor, bem melhor.
Texto da Ruth Manus publicado  no Estadão.

Nenhum comentário: